sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Manifesto sobre o Tempo por Mafalda Martins

Dias, segundos, horas, décadas, semanas, milénios e minutos. Letras e números que não dizem muito. Porque o tempo não existe! É uma ilusão, um fluir constante, uma sucessão ininterrupta. Não se detém, retarda ou acelera. Cada um joga com o tempo que tem. A intensidade é o nosso único relógio.
O tempo é hoje! O nosso tempo. Um tempo de abundância, de velocidade, de eficácia. Nunca tivemos tanto. Nunca se exigiu tanto. Um tempo de consumo imediato. Descartável e com prazo de validade. Usa-se e deita-se fora como se houvesse muito tempo…. É um tempo com pressa. Sem-muito-tempo, portanto. O futuro é agora.
Tempo para existir. Fomos, somos e seremos. Do tempo nascemos, com ele aprendemos e por ele morremos. Inevitável. Inflexível. Irreversível. É a unidade de registo da história. Uma forma de linguagem. As rugas são as memórias escritas no corpo, as nossas histórias.
Tempo para ser. Somos o que somos… no tempo ou em contratempo.
Porque há um tempo para tudo. Para nascer e para morrer. Para plantar e arrancar o que se plantou. Para chorar, sonhar, rir, dançar, amar e odiar. Tempo de guerra e de paz. Tempo de chuva e de sol. Tempo para partir, mesmo sem saber por onde ir… tempo para deixar rasto.
Tempo para ser alguma coisa. Somos crianças, adultos, velhos, pais e mães, amigos, companheiros, namorados. Trabalhadores, inventores, lutadores, sobreviventes e vencidos. Somos o reflexo uns dos outros. Tudo ou nada. É ténue a linha entre o sucesso e o fracasso. A felicidade é um exercício de trapézio, a arte do equilíbrio.
Tempo para ter. Somos o que temos. Telemóvel, laptop, ipod. Muitos cds, muitos livros. Carro, casa e roupa lavada. Consumo, consumo, consumo. D-i-n-h-e-i-r-o. Sem ele, o tempo não nos vale de nada.
Tempo para saber. Somos o que sabemos. E a sabedoria é o maior tesouro que podemos ter.
Tempo para pensar. Somos o que pensamos… cada vez menos. A autenticidade está em vias de extinção. Mas a criatividade não! Respigar, reciclar, reutilizar são as palavras de ordem do nosso tempo, outras o serão noutro. Mais do que uma realidade, somos uma virtualidade, fruto da emergência de uma sociedade da informação. Somos sempre o link para outra coisa qualquer. E outra, e outra, e outra…
tempo para olhar. Somos aquilo que vemos. Aquilo que mostramos ao mundo e o que retemos dele. Um conjunto de momentos impressos na massa cinzenta colectiva. Orgânica. …ou não? Um chip, uma recordação. Somos uma máquina digital: se saiu mal, apagamos, se ficou bem, arquivamos. Na memória, no cartão, numa parede…
tempo para conhecer. Somos números. Classes, categorias. Classificações. A ciência assim o quis. E a tecnologia permitiu. Um genoma de bites, uma matriz de sentimentos, uma tabela de experiências, uma relação de culturas, um molde de raças, um protótipo de fé. Onde está a verdade? Na verdade… não interessa. Não há tempo! A vida é um improviso.

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